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Mão Morta (evento suspenso)

École des Maîtres 2020

a decisão de adiar a École des Maîtres é acompanhada pelo anúncio de um projeto alternativo. O mestre desta edição passará então a ser o dramaturgo italiano Davide Carnevali

Davide Carnevalli natural de Milão, em 1981, doutorado em Teoria do Teatro na Universitat Autònoma de Barcelona, com um período de estudos na Freie Universität Berlin. Atualmente é artista associado no ERT Emilia Romagna Teatro e dramaturgo selecionado pela Royal Shakespeare Company no âmbito do Projekt Europa 2020.

Ensina dramaturgia e teoria do teatro na Civica Scuola de Teatro Paolo Grassi (Milão), na Escola de Teatro Iolanda Gazzerro (Módena) e no Institut del Teatre de Barcelona.

Entre outras obras, escreveu “Variazioni sul modello di Kraepelin” (Prémio Theatertreffen Stückemarkt Berlim 2009, Prémio Marisa Fabbri 2009, Prémio de les Journées des auteurs de Lyon 2012); “Sweet Home Europa” (Schauspielhaus Bochum, 2012); “Ritratto di donna araba che guarda il mare” (Premio Riccione per il Teatro 2013); “Actes obscens en espai públic” (Teatre Nacional de Catalunya, 2017); “Ein Porträt des Künstlers als Toter” (Staatsoper Unter den Linden, 2018); Menelao (ERT, 2019).

Desde 2018, escreve e dirige as Classroom Plays, espetáculos de teatro nas escolas, produzidos pelo ERT. Em 2018, foi-lhe atribuído o Prémio Hystrio para a Dramaturgia, pelo seu percurso artístico.

Os seus textos, traduzidos em quinze línguas, têm sido apresentados em diversos países. Está publicado em Itália pela Einaudi e por Luca Sossella Editore, em França nas Actes Sud e em Portugal nos Livrinhos de Teatro e no TNDM II/Bicho do Mato. Publicou ainda o ensaio “Forma dramática y representación del mundo en el teatro europeo contemporáneo” (Ciudad de México, Paso de Gato, 2017) e a coletânea de contos “Il diavolo innamorato” (Roma, Fandango, 2019).

A palavra e o corpo ausente — Laboratório de dramaturgia em estado de exceção
Por Davide Carnevali

A edição deste ano configura-se como uma exceção em tempos de exceção. Pela primeira vez na sua história, a École des Maîtres não se dirige a jovens atores, mas a jovens dramaturgos.

Isto não significa que iremos desviar a atenção da prática cénica. Pelo contrário. Procuraremos aproveitar a ocasião para refletir sobre a relação entre texto e cena, entre escrita e vida, e fá-lo-emos a partir de um ponto de vista diferente: o daquele que, para a cena, escreve.

Um dramaturgo não escreve teatro, mas para o teatro. Uma dramaturgia pode ser cristalizada num maravilhoso documento de literatura teatral, mas não será teatro enquanto a palavra não se fizer corpo. Admitir a dependência do facto linguístico em relação ao facto cénico não implica, de modo algum, a renúncia à escrita; antes, obriga a repensá-la. Só tomando consciência da própria insuficiência, do que é ser-se dependente em relação a uma outra coisa, algo de desconhecido, ainda não realizado, é que a linguagem se torna plenamente “linguagem teatral”. Linguagem poética e poiética. A dramaturgia pode então configurar-se como o detonador de um dispositivo poderosíssimo: a imaginação. Abrindo-se a um teatro que não imita, mas inventa a realidade.

Mas, para isso, é preciso que o teatro aceite não ser apenas uma questão de palavra e de imagem; ou seja, consiga de alguma forma ser infiel à sua etimologia (em grego, o verbo theaomai significa – ‘grosso modo’ –”observar”). E esse é talvez o aspecto mais interessante da sua natureza: o facto teatral transcende o seu aspecto linguístico e, através dessa operação de distanciamento, também o seu aspecto visual. Porque aquilo que realmente distingue o teatro em relação às outras artes é precisamente o facto de ser manifestação física de alguma coisa que acontece diante de um público de indivíduos em carne e osso, independentemente da linguagem e não obstante o olhar, numa dimensão de partilha de tempo e espaço.

A perda de tal dimensão, a renúncia à copresença física dos corpos, ou seja, à essência íntima da teatralidade, é talvez hoje o perigo maior que corre a sociedade.

Como pode a dramaturgia responder ao desafio?
A pergunta constitui a premissa que fundamenta o nosso laboratório. Escreveremos a partir desta dupla tomada de consciência: a insuficiência da linguagem perante a realidade e o seu enorme potencial criador. Nessa medida, escreveremos para o teatro na sua especificidade de facto material; só que o iremos fazer – e esse é o côté irónico e, só aparentemente, paradoxal da questão – num “estado de exceção” que nos impede, precisamente, a copresença física: vamos trabalhar online, à distância. A nossa tarefa passará, também, por descobrir na dramaturgia uma via de fuga às limitações que nos são impostas no presente e, nessa medida, uma oportunidade para reinventarmos o futuro.

Os textos produzidos irão, por conseguinte, adequar-se à modalidade de apresentação que cada participante tiver previsto, de acordo com as condições em que cada país se vai encontrar no final do laboratório. A última parte do trabalho consistirá no seguinte: adaptar, reduzir, traduzir o texto para uma modalidade específica de ‘posicionamento na realidade’. Este processo de tradução não é secundário e servirá para compreendermos, ainda mais, a importância dos aspectos práticos de uma vida cénica no aqui e agora a que, no momento, somos forçados a renunciar. Mas que nunca devemos perder de vista como horizonte último da dramaturgia e do teatro. — Davide Carnevali

Data

20 - 12, Junho 2020

Horário

Duração

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