parafraseando Manuel Gusmão, poeta e amigo de César, e que vemos no Quem Espera…, a propósito de Herberto Helder, poeta dilecto do cineasta: voltemos a estes filmes como quem tem a certeza que lhe trarão a incorruptível alegria de uma inóspita beleza
Agora que os filmes de João César Monteiro estão todos digitalizados, num trabalho levado a cabo pela Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, é o tempo certo para que os espectadores portugueses possam voltar a ver de novo nas salas, em cópias restauradas, esta obra extraordinária, ferozmente livre e de uma coragem artística ímpar, de um cineasta singular e iconoclasta que marcou sobremaneira a arte portuguesa no último meio século.
E, sobretudo, para que uma nova geração possa descobrir a sua obra “incandescente”, e “desmedidamente genial”, como a descreveu João Bénard da Costa, irónica e incisiva, sempre a morder-nos os calcanhares, que começou com um belíssimo encontro com Sophia de Mello Breyner Andresen em 1969; deambulou pelos contos tradicionais portugueses, em filmes que vão beber aos nossos mitos primordiais e às suas grandes paixões cinéfilas; inventou um alter-ego chamado João de Deus e César vestiu-lhe a pele nas suas tragicomédias, onde, escreveu Victor Erice, “o sagrado e o profano, a alma e o corpo, Deus e o Diabo aparecem sempre juntos, indissociáveis, convivendo no mesmo plano sem passar pela peneira da moral estabelecida. Percorre-as um fantasma: o fantasma da liberdade, que aparece nelas como subversão radical da Realidade”; que escandalizou meio mundo da cultura deste país onde os homens / são só até ao joelho, como no poema de Cesariny, e que, por não terem grandeza, eles e o país, o quiseram encolher e encalhar por ter tido a coragem de, durante a rodagem de Branca de Neve, assumir que era outra coisa que o texto de Robert Walser pedia, e ter ousado um gesto artístico único, criando um “extraordinário filme da palavra sobre o écran negro”, como disse Manoel de Oliveira; até às “três horas de puro prazer”, de Vai e Vem (2003), filme derradeiro de uma lucidez extrema de um cineasta que “inventou” para si um lugar próprio no cinema, e que se estrearia em Cannes, já depois da sua morte.
Uma obra que, a partir de Silvestre (1981), estreado no festival de Veneza, desperta a atenção internacional. Foi o filme do seu encontro com o produtor Paulo Branco, com o qual faria depois O Último Mergulho (1992, festival de Veneza), As Bodas de Deus (1998, festival de Cannes), Branca de Neve (2000, Veneza) e o terminal Vai e Vem (2003, Cannes). De entre os vários prémios que recebeu, destacam-se o Prémio Especial do Júri para Recordações da Casa Amarela (1989) e o Leão de Prata – Grande Prémio Especial do Júri para A Comédia de Deus (1995). Os elogios internacionais multiplicaram-se, de Jean Douchet a Serge Daney, Jean Narboni, Frédéric Bonnaud, Philippe Azoury, Emmanuel Burdeau ou Roberto Turigliatto, dos realizadores Jean-Claude Biette, Otar Iosseliani, Victor Erice, Catherine Breillat, dos escritores Susan Sontag e Bernardo de Carvalho. Uma obra que continua viva, vista e revista. Recentemente, em Nova Iorque, o MoMA levou a cabo, com grande sucesso, uma retrospectiva, a que se seguirão estreias em sala nos EUA e Canadá, e ainda a edição DVD/BLURAY de todos os seus filmes e a publicação de um livro; em França acaba de sair, pela Potemkine, um coffret DVD/BLURAY com todos os filmes, e vários artigos na imprensa.
Parafraseando Manuel Gusmão, poeta e amigo de César, e que vemos no Quem Espera…, a propósito de Herberto Helder, poeta dilecto do cineasta: voltemos a estes filmes como quem tem a certeza que lhe trarão a incorruptível alegria de uma “inóspita beleza”. — Medeia Filmes
João César Monteiro nasce a 2 de fevereiro de 1939 e morre a 3 de fevereiro de 2003. Em 1963, com 15 anos, recebe uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar cinema na London Film School. Dois anos depois regressa a Portugal para realizar o seu primeiro filme, Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1971). Atualmente, o seu trabalho como realizador tem sido objeto de estudo para portugueses e estrangeiros, críticos e académicos, que o reconhecem como um dos mais importantes realizadores portugueses juntamente com Manoel de Oliveira. Várias das suas obras são representadas e premiadas em festivais internacionais como o Festival de Cannes e o Festival de Veneza: Silvestre (1981) foi apresentado no Festival de Veneza, festival onde regressa com Recordações da Casa Amarela (1989) e ganha o Leão de Prata. Novamente em Veneza com A Comédia de Deus (1995) recebe o Grande Prémio Especial do Júri.
A Mãe (1979) + Os Dois Soldados (1978) + O Amor Das Três Romãs (1979) + Conserva Acabada (1990) + Lettera Amorosa (1995) + O Bestiário ou O Cortejo de Orfeu (1995) + Passeio Com Johnny Guitar (1996)
Data
12, Janeiro 2026
13, Janeiro 2026
19, Janeiro 2026
20, Janeiro 2026
26, Janeiro 2026
Horário
18H30, 21H30
18H30, 21H30
18H30, 21H30
18H30, 21H30
18H30, 21H30
Duração
—
Faixa etária
—
Preço
€6
€4
< de 25 anos, estudante, comunidade uc, rede alumni uc, > 65 anos, grupo ≥ 10, desempregado, profissional do espetáculo, parcerias TAGV
3 Filmes + 1 Presente: Na compra de 3 bilhetes para 3 filmes à escolha, o 4.º bilhete para uma nova sessão é oferta *a campanha é válida na compra de 3 bilhetes para as sessões de cinema em janeiro de 2026. A campanha 3 Filmes + 1 Presente só está disponível na Bilheteira Presencial TAGV
Os bilhetes com desconto são pessoais e intransmissíveis e obrigam à identificação na entrada quando solicitada. Os descontos não são acumuláveis
Bilheteira / atendimento presencial
segunda a sexta-feira 17h00 — 20h00
em dias de eventos 1 hora antes / até meia hora depois
encerrada aos sábados, domingos e feriados
Local TAGV
Ciclo Viva João César Monteiro – Medeia Filmes
Cópias digitais restauradas